À l’attaaaque !
Lembra que no post Desconfiômetro mencionei uma dúvida que eu e uma colega tivemos sobre a tradução da palavra attaque num texto literário? Prometi um artigo sobre isso e cá estou, cumprindo a promessa. Mas, seguindo a mesma lógica do guia Nas Entrelinhas, não vou apresentar respostas prontas, apenas sugestões de tradução e, acima de tudo, como cheguei a elas.
O contexto do livro que minha colega estava traduzindo era um problema de saúde: uma personagem tinha morrido “d’une attaque le mois dernier”. Essa colega, que mora no Brasil, achava provável que a personagem tivesse sido vítima de um infarto. Mas, tradutora experiente que é, compartilhou a dúvida: é infarto mesmo ou pode ser outra coisa?
Bom, claro que pode ser muita coisa. Mas a questão aqui é: quando attaque (que em francês é substantivo feminino) aparece assim, sem complemento e com pouquíssimo contexto (a única coisa que sabemos é que foi fatal), em que doença pensamos espontaneamente? E como traduzir?
Vamos por partes
Uma possibilidade seria traduzir simplesmente por “ataque”, certo?
Bom, eu não faria isso. No Brasil, o substantivo “ataque”, sem complemento, às vezes tem conotação negativa. Ao ler “ela teve um ataque”, muita gente talvez pense num ataque histérico, num acesso de fúria, numa crise de nervos – situações que raramente levam à morte.
– Mas… traduzir por “ataque” tem a vantagem de ser fiel ao texto original, Maria!
– Hmmm... Será que é isso mesmo?
Para evitar o uso de “ataque” na tradução, a colega em questão logo pensou em “infarto”. Por quê? Primeiro, porque não é raro ouvir a expressão “ataque do coração” como sinônimo de infarto. Segundo, porque se encaixa bem no contexto: infartos costumam ser fatais. Pelo que ela me disse, a personagem era uma pessoa ativa que vivia intensamente, e a morte foi repentina ou, em todo caso, inesperada.
Mas, desconfiando de que poderia haver algo nas entrelinhas, a tradutora teve a boa ideia de pedir a opinião de alguém que, por viver há anos na França, talvez conhecesse nuances do francês que os dicionários não mostram. Adivinhe quem?
[Que sorte a minha! Adoro trocar ideias com essa colega!]
De cara, a intuição me soprou no ouvido que um francês dificilmente usaria attaque para designar um infarto. Fui então verificar e vi que muitas fontes fidedignas indicam AVC (acidente vascular cerebral) como equivalente de attaque:
- Larousse
Para confirmar, perguntei a uma colega francesa que sentido tinha, para ela, a palavra attaque no contexto de medicina.
A única certeza que ela me deu foi a de que o termo é realmente ambíguo. Apesar da hesitação inicial, e sem que eu tivesse mencionado o resultado das pesquisas que fiz, ela logo associou attaque e AVC: “par ailleurs, je pense qu’aujourd’hui on dit « AVC » comme on disait « attaque » autrefois”, foi o que ela escreveu.
Tudo isso me leva a pensar que a resposta à pergunta que fiz lá em cima (“ataque” é uma tradução fiel de attaque?) é não. Espontaneamente, o leitor brasileiro pensaria que a personagem sofreu um infarto, enquanto o leitor francês entenderia que ela foi vítima de um AVC.
Mas e agora? Como traduzir?
Não sei qual foi a solução adotada pela colega (acredito que o livro ainda não tenha sido publicado), mas, se fosse eu a tradutora, provavelmente teria usado “ataque cerebral” (para manter a proximidade com o original) ou AVC (alternativa mais objetiva e econômica).
Outra opção seria traduzir por “mal súbito” que, segundo o dicionário Houaiss, é um “estado mórbido cuja etiologia se desconhece ou não se menciona e que ocorre de repente”. Nesse caso, a tradução não é nem mais nem menos imprecisa que o original, concorda?
Uma última possibilidade seria “morte súbita”: “a que é inesperada, inopinada, sobrevindo a um indivíduo que aparentemente goza de boa saúde” (Houaiss).
Cabe no contexto? Cabe. Mas, como se distancia do termo original, é bom conversar com o cliente ou editor caso você queira usar uma dessas opções.
Eu já tinha terminado de redigir este post quando recebi outro e-mail da colega francesa que, depois de refletir um pouco mais, escreveu: “Attaque, c’était suffisamment vague pour qu’on l’utilise pour n’importe quelle mort subite...” (...) “l’auteur a fait comme les Francaouis* de base et a allègrement utilisé attaque pour « mort subite » cérébrale ou cardiaque, sans chercher plus loin”.
O que, para mim, confirma que “mal súbito” ou “morte súbita” são traduções perfeitamente plausíveis.
*Francaoui: gíria que designa uma pessoa de nacionalidade francesa.
(Imagem do filme baseado no livro A Morte e a Morte de Quincas Berro d’Água, de Jorge Amado.)
Moral da história: ao traduzir, verifique até o que, aparentemente, não precisar ser verificado!
Mudando um pouco de assunto, mas nem tanto
Você sabe como se diz um ataque (ou crise) de riso em francês?
Un fou rire !
Na imagem, Bourvil e Louis de Funès, astros do cinema francês nas décadas de 1960-1970. Você sabia que um comédien nem sempre é um comediante?
E como traduzir a expressão À l’attaque, grito de guerra lançado, por exemplo, pelo chefe de uma tropa, ordenando que os guerreiros avancem em direção ao inimigo? (Atualmente, que eu saiba, só é usado em quadrinhos e brincadeiras infantis ou, senão, com sentido figurado.)
Pesquisando na internet a tradução do quadrinho do Astérix que abre este post, encontrei esta tradução, mas não gostei:
“Atacar!” ou “Atacaaar!” seria bem melhor, não?
Para terminar, uma expressão: être d’attaque / se sentir d’attaque. Como você traduziria?
Aqui vão algumas sugestões:
Après trois semaines de congés, nous sommes d’attaque pour la rentrée !
Após três semanas de férias, estamos prontos / muito animados / com a corda toda / no maior pique para retomar as atividades!
Tu te sens d’attaque pour participer à cette course ?
Está em forma / preparada / animada para participar da corrida?
(Conhece a história desta foto? Pesquise sobre Kathrine Switzer ou leia este artigo.)
E o que mais? / Et quoi encore ?
As palavras e expressões que aparecem em itálico e negrito (às vezes sublinhadas ou coloridinhas – depende das configurações de cada um) são verbetes apresentados no Entrelinhas. Como o Substack não oferece muitos recursos de formatação de texto (nem sublinhar eu posso!), o único jeito que encontrei para destacá-las foi criando links para o livro. Os links para outras páginas também aparecem em destaque, mas sem negrito e em caracteres não itálicos.
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Amo passear por essas possibilidades toooodas!!
Que bom! Quantos meandros numa só palavra...