Permettez-moi
Um dos vícios de linguagem mais flagrantes do francês é o uso excessivo do verbo permettre como auxiliar. Um exemplo típico:
> Cette étude a permis de montrer l’efficacité du produit.
Cá entre nós, a tradução em português não fica muito mais enxuta sem o verbo “permitir”?
> Esse estudo demonstrou / comprovou a eficácia do produto.
Não quero dizer com isso que o uso de “permitir” esteja errado ou deva ser evitado em todos os contextos. Mas gostaria de chamar a atenção para um elemento que, a meu ver, está cada vez mais presente nos textos corporativos e jornalísticos – não necessariamente de maneira criteriosa – e merece nossa atenção na hora de traduzir. Sem ter a pretensão de fazer um estudo científico do fenômeno, compartilho a seguir algumas das soluções que costumo utilizar.
Nos textos que envolvem cosméticos, setor para o qual traduzo há muitos anos, é comum ver este tipo de frase:
> Cet ingrédient permet de régénérer la peau.
Para mim, nesse caso específico, a intenção é criar uma distância entre o ingrediente e seu efeito, isentando a marca de qualquer responsabilidade caso o consumidor não fique satisfeito com o resultado anunciado. De certa forma, o verbo permettre atenua a promessa de regenerar a pele, mas sem negar a eficácia do produto.
É possível usar “permitir” na tradução? Claro que sim, mas existem outras possibilidades:
> Esse ingrediente contribui para / ajuda a regenerar a pele.
> Esse ingrediente favorece a / auxilia na / possibilita a / promove a regeneração da pele.
Mas nem sempre a intenção é “prometer sem se comprometer”.
Muitas vezes, permettre vincula um instrumento e sua ação, abre um caminho, aponta para um resultado ou um objetivo.
Seguem alguns exemplos típicos e minhas sugestões de tradução:
> Ce débat nous permet de mieux comprendre les dysfonctionnements de la filière textile.
> Graças a esse debate, temos uma melhor compreensão dos problemas do setor têxtil.
> Com esse debate, podemos compreender melhor os problemas do setor têxtil.
> Esse debate nos ajuda a compreender melhor os problemas do setor têxtil.
> Esse debate abre caminho para uma melhor compreensão dos problemas do setor têxtil.
> Un nouveau partenariat qui doit permettre de réduire les coûts de production.
> Uma nova parceria que objetiva reduzir os custos de produção.
> Uma nova parceria que promete reduzir os custos de produção.
> Pour permettre à la population d’accéder aux services, la collectivité doit adopter des mesures visant à renforcer la sécurité.
> Para garantir que a população tenha acesso aos serviços, a municipalidade deve adotar medidas para reforçar a segurança.
> Para proporcionar à população acesso aos serviços, a municipalidade deve adotar medidas para reforçar a segurança.
> Ces résultats nous permettent d’être prudemment optimistes pour l’avenir de l’industrie.
> Esses resultados nos convidam a um otimismo prudente em relação ao futuro da indústria.
> Cette loi permettra-t-elle de relancer l’investissement ?
> Esta lei será capaz de estimular os investimentos?
> Ce sont des outils permettant aux clients de tester les produits avant de les acheter.
> Esses aplicativos oferecem aos clientes a possibilidade de testar os produtos antes de comprá-los.
Poderia encher mais umas três páginas de exemplos, mas o objetivo aqui não é esgotar as possibilidades e sim convidá-lo a parar um instante, na próxima vez em que o verbo permettre aparecer no texto que você estiver traduzindo, e ver se não existe uma solução mais elegante e idiomática do que “permitir”. Muitas vezes, a resposta se encontra no contexto ou simplesmente no uso do verbo principal:
> Cette expérience m’a permis d’élargir ma vision du monde.
> Essa experiência ampliou minha visão do mundo.
No blog de René Merteens, autor do Guide anglais-français de la traduction, o tradutor Dominique Jonkers publicou há alguns anos um artigo muito interessante e recheado de exemplos sobre o uso excessivo do verbo permettre. Vale a pena ler (em francês).
Não posso me despedir sem comentar o título deste post – permettez-moi – e seu primo menos cerimonioso: je me permets.
Permettez-moi tem um quê de pernóstico, de metido a besta. Em geral, ocorre em situações solenes ou formais (discurso, correspondência oficial etc.):
> Permettez-moi de saluer les efforts consentis par le comité d’organisation.
> Permitam-me / Peço licença para louvar os esforços envidados pelo comitê de organização.
Mas pode também ser usado com ironia ou falsa afetação, a fim de dar mais ênfase ou chamar a atenção para o que se vai dizer:
> Permettez-moi, chers élèves, de vous rappeler que vos portables doivent être éteints pendant le cours.
> Peço permissão / Peço licença, caríssimos alunos, para lembrar que os celulares dos senhores devem permanecer desligados durante a aula.
Je me permets tem o mesmo sentido, mas é menos pomposo e aparece com certa frequência em entrevistas, na correspondência comercial e em conversas relativamente formais. Na maioria dos casos, pode ser traduzido por “gostaria de”.
> Je me permets de solliciter votre soutien à notre campagne de fournitures scolaires.
> Gostaria de / Tomo a liberdade de solicitar o seu apoio para nossa campanha de material escolar.
> Je me permets de penser que tout cela n’était qu’un grand malentendu.
> Atrevo-me a pensar que tudo não passou de um grande mal-entendido.
> La ponctualité est une contrainte majeure sur laquelle je me permets d’insister.
> A pontualidade é uma exigência cuja importância faço questão de / eu gostaria de frisar.
Quanto à construção je me permets de vous contacter (ou je me permets de vous écrire), muito comum no início de cartas e e-mails formais, geralmente o objetivo é marcar uma certa deferência (sincera ou por simples obrigação de cortesia): logo de cara, quem escreve pede desculpas por estar incomodando (de maneira sincera ou por pura arrogância).
Não tenho certeza de que esse salamaleque seja realmente usado no Brasil. Quando traduzo esse tipo de correspondência, costumo dar um tom polido ao texto, mas indo direto ao assunto (por exemplo: Gostaria de informá-lo / de solicitar o seu apoio etc.).
E o que mais? / Et quoi encore ?
As palavras e expressões que aparecem em itálico e negrito (às vezes também sublinhado ou colorido – depende das configurações de cada um) são verbetes apresentados no Entrelinhas. Como o Substack não oferece muitos recursos de formatação de texto (nem sublinhar eu posso!), o único jeito que encontrei para destacá-las foi criar links para o livro. Os links para outras páginas também aparecem em destaque, mas sem negrito e em caracteres não itálicos.
Os artigos publicados na página do Substack e enviados por e-mail aos assinantes são gratuitos. Por iniciativa própria, o Substack incentiva os leitores a pagarem pelo conteúdo, o que talvez assuste ou irrite certas pessoas. Calma. Se algum dia eu ativar o pagamento, vai ser só para quem quiser e puder.
Para comprar a versão impressa do Guia prático de tradução francês-português, clique aqui (distribuição unicamente no Brasil, disponível a partir de 19 de fevereiro de 2024).
Em breve, o link para o e-book!







Si je peux me permettre, ça fait plaisir de voir uma boa análise sobre a tradução de "permettre".
Seu livro já está no meu carrinho de compras :)
Hâte de le lire !
Bonjour Maria, bonjour aux lecteurs/lectrices,
Je remarque pour ma part depuis quelques années une tendance, surtout à l'oral (et notamment chez les politiques cherchant à temporiser lors d'interviews ?), à employer " permettre de pouvoir ". Voilà qui devrait donner du grain à moudre à Maria dans son examen des vices de langage du français. :)
Bonne lecture à toustes !
Marie-Christine, qui se *permet* d'écrire en français plutôt que de massacrer le portugais